Instituto de Pesquisa de Rondônia

FESTAS RELIGIOSAS DE DEVOÇÃO NO VALE DO GUAPORÉ – HISTÓRIA E MEMÓRIA

FESTAS RELIGIOSAS DE DEVOÇÃO NO VALE DO GUAPORÉ – HISTÓRIA E MEMÓRIA

Por: Marco Antônio Domingues Teixeira

O rio Guaporé situa-se na porção noroeste do país, percorrendo as áreas dos estados do Mato Grosso e Rondônia, na fronteira com a Bolívia. Integrando a bacia Amazônica, o Guaporé tem um importante passado histórico, ligado tanto à presença das populações indígenas, quanto à ocupação colonial ibérica na região. No século XVIII, a partir de 1734, os portugueses iniciaram um projeto de colonização baseado em um tripé de ações: mineração de ouro, escravismo africano e fortificação militar das fronteiras.
Foi o trabalho escravo a base de todo o projeto colonizador. A presença dos brancos era limitada e escassa por razões diversas, destacando-se a insalubridade ambiental e a grande distância em relação a quaisquer outros pontos de colonização portuguesa. A capital Vila Bela da Santíssima Trindade, foi erguida, a partir de 1752, por negros escravos e libertos, que compunham mais de 80% da população residente na região. O Real Forte Príncipe da Beira (1776/1783) é outra impressionante construção colonial erguida pelo trabalho escravo dos negros no Guaporé.
A forte presença africana determinou a formação de uma cultura diferenciada. Durante as primeiras décadas do século XIX, a região do Guaporé foi progressivamente abandonada pelos brancos, que terminaram por transferir a capital da então província de Mato Grosso para Cuiabá (1835). Somente as populações negras (escrava e liberta) permaneceram na região, reinventando o lugar e transformando o Vale do Guaporé em uma “terra de pretos”. Dentre os inúmeros elementos que compõem a cultura negra guaporeana destacam-se os festejos religiosos e profanos, além das representações teatrais de origem jesuítica.
A população negra do Guaporé tem procedência Banto, tendo sido introduzida na região pela rota monçoeira do Amazonas, Madeira, Mamoré e Guaporé, através da Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão e pelas rotas monçoeira e sertanista do Sudeste, através dos rios e sertões de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás. Dentre os costumes trazidos pela população escrava destacam-se inúmeros festejos. O Reinado do Congo é citado desde meados do século XVIII e o sociólogo Gilberto Freyre narra, em sua obra “Contribuição Para a Sociologia da Biografia”, uma importante festa em homenagem ao aniversário da rainha Dona Maria I, celebrada pelo Governador Luís de Albuquerque, onde os negros realizaram um Grande Reinado do Congo e Cavalhadas.
Com a decadência da região, as festas e tradições brancas foram esquecidas ou reelaboradas pela população negra da região. O explorador francês Francis Castelnau, que visitou o Vale do Guaporé em meados do século XIX e escreveu “Expedição às Regiões Centrais da América do Sul”, narra as festividades em honra de Santo Antônio e um banquete oferecido pelos negros de Vila Bela em sua homenagem, nas instalações do Palácio dos Capitães-Generais. O advento do seringalismo e da exploração da poaia (Cephaelis ipecacuanha (Brot.) A. Rich) promoveu uma maior dispersão da população negra remanescente do Guaporé, por toda a região. Essa dispersão, que já havia sido iniciada com a fundação de diversos quilombos no século XVIII, fez com que inúmeras localidades se transformassem em núcleos de povoamento negro. Este é ocaso de Pedras Negras e Santo Antônio do Guaporé. Em inúmeras delas encontram-se vivas várias expressões da cultura de festas e folguedos de origem colonial da população local. Dentre as principais celebrações podemos citar as festas do Divino, de São João, de Santa Rosa e a de Nossa Senhora da Conceição.
A primeira notícia referente aos festejos do Divino no médio Guaporé remete ao ano de 1894, quando os moradores da Ilha das Flores receberam do Bispo de Cuiabá uma Coroa do Divino Espírito Santo, além do Cetro e da Pombinha, todos em prata. A festa ocorria somente na Ilha das Flores, até que os moradores de Tarumã conseguiram o direito de celebrá-la também. A partir da década de 1930 o festejo passou a ocorrer nas diferentes localidades do Vale do Guaporé, através de sorteio realizado pela Irmandade do Divino Espírito Santo, com o prazo de um ano de antecedência. A festa do Divino no Guaporé rondoniense é precedida pelo ciclo de festejos de Vila Bela, que se inicia com a Festa das Três Pessoas, passa pela Festa do Divino e culmina com a festa de São Benedito.o ciclo das festividades de Vila Bela tem início em abril e término em julho, tendo sido estudadas pela antropóloga Maria de Lurdes Bandeira em sua obra “Território negro em espaço branco”.
A celebração do Divino, no Guaporé rondoniense, tem início uma semana após a Páscoa, quando o “batelão do Divino” começa a visitar, através de uma procissão fluvial, as localidades do Guaporé e do Mamoré, desde Pimenteiras, até Guajará-Mirim. A tripulação do barco é composta por doze remeiros, escolhidos entre os que fizeram promessas ao Divino. Eles remam o barco em sincronia, realizando ondulações na água para “embelezar a chegada às localidades”. A embarcação leva, também, um salveiro, que é encarregado da “ronqueira” que é uma espécie de pequeno canhão criado no século XVIII por Dom Antônio Rolim de Moura para a defesa das embarcações que navegavam pelo rio Guaporé. Viajam , ainda, no batelão do Divino, um pequeno coral de meninos cantores; o mestre caixeiro; o capitão do mastro, os mordomos e damas de companhia, o imperador e a imperatriz. A embarcação percorre as águas do Guaporé durante quarenta e cinco dias e o festejo termina no dia de Pentecostes.
Ao aproximar-se de uma localidade, o batelão faz três círculos dentro da água, cada vez mais próximos das margens. Estes movimentos circulares lembram as rodas do candomblé e as três saudações rituais realizadas pelos girantes às portas do salão, ao entoto e aos atabaques do Terreiro. São dados três tiros com a ronqueira e os meninos cantores começam a entoar os hinos ao Divino, cujas letras remontam ao século XIX. A essa altura o porto da localidade foi tomado pelos devotos e fiéis, que adentram o rio até a profundidade de suas cinturas ou ombros, indo receber a embarcação sagrada dentro d’água. Ao aportar, o salveiro dispara novos tiros com a ronqueira e o imperador, juntamente com sua imperatriz apresentam a coroa, o cetro e o mastro com a bandeira e Pombinha do Divino à devoção popular. Os mordomos e damas de companhia organizam a multidão para os beijos devocionais. Todos seguem, em procissão, para a igreja da localidade, onde acontecem as missas, adorações, cânticos e louvores ao Divino. À noite ocorre uma grande festa na comunidade, com muita música, dança, comida e bebida.

Durante a permanência do Divino na localidade a coroa, o cetro, a bandeira e a pombinha irão visitar as casas dos devotos, recebendo esmolas e doações diversas e ali toda a comitiva do Imperador, mais os seus seguidores, devotos e curiosos serão honrados com muita festa, alimentos e bebidas, dentre os quais encontram-se a chicha, o massacos, os biscoitos de goma, saltenhas, patascas, peixes e farofas diversas. Todo esse alimento é oferecido com grande fartura, mais uma vez, lembrando as festividades de Terreiros onde a distribuição de alimentos é uma constante. São entoados cânticos, louvações e rezas. Os encontros dos moradores de comunidades distantes são causa de muita festa e alegria.as conversas, danças e música tornam o ambiente animado e convidativo.
Após a comitiva do Divino percorrer de batelão todas as comunidades ribeirinhas, já ao final da festa, é realizado um sorteio para indicar a localidade que deverá ser a sede dos festejos do ano seguinte. A Irmandade deverá começar novamente a recolher esmolas, donativos e contribuições para as comemorações do ano seguinte.
A festa de São João faz parte do ciclo das festas juninas, muito celebradas em todo o estado de Rondônia. Entretanto, na comunidade quilombola de Santo Antônio do Guaporé ela ainda é realizada em moldes coloniais. Com um ano de antecedência, os moradores escolhem o Juiz e os Mordomos da Festa, o capitão do Mastro e o Mestre de Cerimônias. Um dos mais velhos moradores da localidade organiza o coral dos meninos cantores que, a exemplo da Festa do Divino, devem usar trajes brancos e um lenço também branco sobre a cabeça. No dia quatorze de junho, inicia-se a novena de São João, seguida por uma procissão noturna com velas e candeias que percorre as trilhas da comunidade, em meio à floresta, que não possui energia elétrica, dirigindo-se para a capela rústica de Santo Antônio, onde está guardada uma pequena imagem barroca de São João talhada em madeira Na noite de vinte e três de junho, a comunidade está repleta de visitantes vindos da Bolívia e de localidades variadas do Guaporé. Todos são recebidos, alojados e alimentados pelos moradores locais. Essa é a última noite da novena. Após a reza, a imagem de São João é levantada de seu altar e carregada nos braços erguidos de um dos moradores. A procissão segue iluminada pelas velas e tochas da capela até o rio, entoando-se cânticos e rezas católicas. Ao chegar ao rio, a imagem é entregue ao Juiz, que mergulha juntamente com a Imagem do Santo por três vezes nas águas escuras do Guaporé. O Santo é, então, devolvido ao Mestre de Cerimônias que o conduz à frente de uma nova procissão, agora festiva e alegre, ao som de cânticos variados e marcada por danças em compassos diversos até a capela. No terreno adjacente arde, agora, uma enorme fogueira. A festa toma, então, um ritmo profano. A chicha é servida aos baldes, pura ou com álcool e os homens ainda bebem muita cachaça e álcool puro, trazido pelos vizinhos bolivianos. A comida inclui muito peixe, carnes variadas, mandioca, arroz e farinha. Os bolos e biscoitos de goma de mandioca são as especialidades da festa. Os festejos se estendem pelo dia seguinte, emendando-se com o almoço e nova noite de danças e comidas. Amigos pulam de mãos dadas a fogueira e tornam-se compadres de fogueira. No dia vinte e cinco, a comunidade realiza o sorteio do copo, que deverá indicar quem irá presidir os festejos do ano seguinte. Os visitantes partem, tendo sido suas canoas, lanchas e batelões abastecidos pelas mulheres de Santo Antônio, com muita chicha e comidas diversas. A comunidade retoma o seu ritmo natural de vida, baseada na agricultura de subsistência e na pesca.
Os festejos de Santa Rosa, que ocorrem em vinte e três de agosto, remontam aos tempos da extinta missão jesuítica de Santa Rosa do Guaporé, conhecida como Santa Rosa Velha e fundada pelos padres na década de 1750. Atualmente, a festa é celebrada em algumas comunidades de negros locais. Dentre estas localidades destacam-se Costa Marques e a Vila quilombola de Jesus em São Miguel do Guaporé. O dia é marcado por um repouso total, onde não se faz absolutamente nada, sob pena de a Santa castigar com dores de dente e ouvido. Durante as nove noites que precedem a festa de Santa Rosa, é celebrada uma novena que culmina com uma procissão onde não se registra a presença de padres, sendo responsabilidade de uma família devota. Ao término das obrigações religiosas os devotos, que jejuaram durante o dia, acorrem para o terreiro da casa do festeiro e são recebidos com muita comida, composta por carnes, peixes, arroz pudins e bolos de arroz e mandioca, chicha, refrescos e vinho de palma. Durante toda a noite haverá dança e música.

Nos mesmos moldes ocorre a Festa de Nossa Senhora da Conceição, em oito de dezembro. Esse festejo é celebrado com grande cerimônia em Pedras Negras e na Vila de Jesus. Para receber os visitantes, o patriarca da comunidade de Jesus mata um boi, diversos porcos e galinhas, além de oferecer enorme fartura de peixes, sob as mais variadas receitas. O mesmo procedimento é observado em Pedras Negras, onde o festejo é realizado pela matriarca de uma das famílias locais. As bebidas incluem vinho de garrafão, vinho de palma, chicha e refrescos. Pela manhã, é celebrada uma missa em honra de Nossa Senhora, fechando o ciclo da novena. A presença do padre é ansiosamente aguardada. Depois ocorre o grande almoço com muita música e dança que se estenderão noite a fora.
O conjunto das festas religiosas das comunidades de negros do Vale do Guaporé nos remete ao universo do catolicismo popular amazônico, marcado pela mistura das tradições indígenas e caboclas com as tradições católicas e africanas, que abrangem rituais de nítida expressão corporal como as danças realizadas após o banho da imagem de São João em Santo Antônio do Guaporé ou as evoluções da embarcação do Divino em frente aos portos em que irá atracar, para expor os símbolos e relíquias à devoção dos fiéis. As rezas, novenas e litanias realizadas pelos “chefes”, benzedores e rezadores locais, sem a presença de um padre, são elementos comuns do cenário amazônico, onde os sacerdotes católicos eram poucos e só conseguiam visitar as localidades mais remotas muito raramente, durante as viagens pastorais conhecidas como “desobrigas”
Muitos dos elementos rituais que compõem o aparato gestaual das festas, encontram-se escamoteados, uma vez que a partir dos anos 1930 a ação romanizadora da Igreja Católica foi intensificada na região com a presença do missionário Dom Francisco Xavier Rey, mais tarde Bispo Prelado de Guajará-Mirim, que impulsionou a catequese na região e estimulou o combate a todas as formas devocionais não ortodoxa, atuando decisivamente na romanização dos costumes e das tradições religiosas locais.

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