Instituto de Pesquisa de Rondônia

Rondônia: Estudos Regionais

HISTÓRIA DE RONDÔNIA.

1) AS POPULAÇÕES INDÍGENAS.

14690845_1393273780697776_4640040619888380953_nConsiderada durante muito tempo como uma região marcada por um grande vazio demográfico e sub-povoada, a Amazônia sempre foi o “lar” de inúmeras sociedades indígenas que habitaram a região há milhares de anos e nela desenvolveram importantes culturas que só muito recentemente começam a ser estudadas através dos esforços de modernos arqueólogos, historiadores e antropólogos. A Pré-História da Amazônia nos revela a existência de sociedades avançadas, formada por aldeias compostas por milhares de indivíduos e com culturas sofisticadas, capazes de produzir excedentes econômicos que seriam comercializados com as populações que viveram no altiplano e na Cordilheira dos Andes.

Viveram na Amazônia populações que produziram importantes manifestações culturais e desenvolveram técnicas agrícolas capazes de garantir seu abastecimento de forma permanente, além de práticas de trabalho em cerâmica, abertura de estrada e construção de pontes de madeira (como foi o caso das recentes descobertas arqueológicas á cerca da cultura Tapajós), recuperação de solos para aproveitamento agrícola (como se observa no chaco boliviano) e primórdios de construções em pedra (como a que encontramos na serra da muralha em Rondônia).

Os relatos dos primeiros viajantes que percorreram o vale do Amazonas, ainda no século XVI, falam de sociedades impressionantes como a dos índios Omágua, Aruã, Tupinambá e Tapajó. No baixo Amazonas foram notáveis as populações que desenvolveram as técnicas ceramistas que produziram as cerâmicas conhecidas como marajoara.
No estado de Rondônia, os trabalhos arqueológicos e etnológicos evidenciam a presença muito antiga, datada de milhares de anos de diversas culturas ameríndias, notadamente ligadas aos povos Tupi. Essas populações sempre foram diversificadas e passaram por grandes mudanças ao longo do tempo. Os estudos arqueológicos revelam enorme mobilidade territorial e grande alternância de culturas durante os diversos períodos que precederam á chegada dos colonizadores ibéricos.

Hábitos e costumes diferenciaram os povos indígenas e não se pode pretender uma homogeneização de suas tradições e práticas.

Desde a época em que a maior parte da Amazônia pertencia aos estados do Maranhão e Grão-Pará, o indígena foi utilizado também na empresa de dominação. Como mateiros (conhecedores do terreno), remeiros, flecheiros, participaram também das tropas, entradas e bandeiras que devas saram a Amazônia em todos os sentidos no século XVIII.

Os indígenas do vale do rio Madeira.

Na região dos rios Madeira, Mamoré e Guaporé e nos seus afluentes, o português encontrou dois grupos de indígenas: o primeiro era formado por populações antigas, que ali residiam há longo tempo, como por exemplo os Mura, os Tora e os Matanawi. O segundo grupo é formado pelos povos que para lá migraram em fuga, diante do avanço dos europeus no litoral brasileiro ou do expansionismo territorial de nações indígenas mais fortes. Desses povos que migraram possivelmente os Tupi foram os primeiros a atingir a bacia do rio Madeira. Estes povos vinham recuando de suas povoações que até o século XVI estendiam-se da foz do Amazonas até o sul de São Paulo.

Os Tupinambarana, descobertos pelo padre Acuña em 1639 na ilha de mesmo nome no rio Amazonas próximo à foz do Madeira eram descendentes do Tupinambá de Pernambuco. Posteriormente outros grupos migraram para aquela região provocando inclusive guerras inter-tribais pelo controle do território.14725643_1393273790697775_1581402821945386628_n

No final do século XVIII alguns grupos indígenas do Tapajós começaram a entrar em contato com o colonizador, conhecidos como Cabahiba ou Kawahib eram uma nação que se subdividia em vários grupos, dentre eles os Parintintin. Esses Kawahib foram ferozmente perseguidos pelos Munduruku e expulsos de seus territórios subdividiram-se em vários grupos que espalharam-se na região situada entre os rios São Manoel e Madeira. Os Tupí-Kawahib após a dispersão provocada pelos Mura situaram-se no rio Branco, afluente do Roosevelt e depois ampliaram seu território até o Ji-Paraná e seus afluentes. Os Cabahibas foram encontrados até o final do século XIX no campo dos Parecis, entre a foz do Arinos e Juruena.

Nessa mesma época o Baixo e Médio Mamoré foi objeto da migração de outro grupo indígena, os Txapalrura. Viviam originalmente no curso do Médio e Alto rio Blanco (Baures), na área em tomo do lago Chitiopa e parte de Concepción de Chiquitos (Bolívia). Os Txapakura foram dominados pelos europeus no inicio do século XVII e reduzidos aos aldeamentos dos colonizadores. Alguns grupos penetraram a América Portuguesa, desses os Urupá, Jarú e Torá pertencem a família lingüística Txapakura e entraram em contato com os portugueses no início do século XVIII.

O uso da mão-de-obra indígena pelos colonizadores

De maneira intensiva o indígena foi utilizado como mão de obra no Madeira a partir do século XVIII. Além do extrativismo do cacau, os indígenas eram indispensáveis para a extração da salsaparrilha, banha de tartaruga e óleo de copaíba, nessa área periférica. No Alto Madeira, a praia do Tamanduá, próxima a primeira cachoeira, Santo Antônio, era um viveiro abundante de tartarugas. No período da desova os indígenas retiravam os ovos para produzirem o óleo ou manteiga de tartaruga. Essa utilização do indígena não ocorria de maneira pacífica, em regiões distintas tribos como os Arara e Munduruku resistiam bravamente ao avanço português.

Contudo, a nação que mais ferozmente reagiu ao avanço português na área do Madeira no século XVIII foi a dos Mura. O historiador Vítor Leonardi afirma que essa nação possuía, no século XVIII, uma população de 40.000 pessoas que morava às margens do Madeira, tendo combatido o colonizador na área compreendida entre esse rio e o Tocantins.
No final do século XIX o Madeira era ainda fartamente habitado por várias nações indígenas.

Os indígenas do Vale do Guaporé.

No Vale do Guaporé viveu uma ampla gama de populações indígenas, que sempre despertou a cobiça de bandeirantes e sertanistas que percorriam as imensidões dos sertões brasileiros em busca de indígenas para serem vendidos nos mercados coloniais de escravos.

Entre os grupos preferidos pelos sertanistas e bandeirantes que capturavam indígenas para a venda no mercado colonial de escravos encontramos os Bororo e os Pareci, que eram considerados de maior docilidade, mais fácil adaptação aos hábitos e costumes da sociedade colonial. Outros povos, entretanto eram conhecidos e temidos por sua feroz resistência aos avanços dos colonizadores e dos traficantes internos de indígenas para a escravidão. Dentre esses grupos que viviam na capitania do Mato Grosso e Cuiabá, podemos destacar: os Cabixi, os Caiapó e os Paiaguá, que habitavam o vale do Paraguai.

Um Bando (legislação colonial emitida pelos governantes das capitanias) do governador de São Paulo datado de 13 de dezembro de 1727 proibia a venda de índios. A legislação real sobre esse assunto era dúbia e praticada com pouco rigor.

Datava de 1686 o Regimento das Missões. Por esse documento promulgado durante o reinado de D. Pedro II, rei de Portugal, procurava-se regularizar e harmonizar a ação colonizadora e catequética. No entanto criavam-se sempre exceções que possibilitavam o resgate e a guerra justa.

Em suas instruções o governador Rolim de Moura trazia ordens de Portugal para tratar com o rigor da guerra justa aos Caiapó e Paiaguá, permitindo a quem os apresasse a sua escravização mas preferindo-se a sua extinção caso não se submetessem. Por outro lado ordenava-se que se construísse missão e aldeamentos para os índios Parecis que vinham sofrendo contínuos ataques dos sertanistas de Cuiabá e do Mato Grosso.

Desde a década de 1750, o governador do Pará Francisco Xavier Mendonça Furtado (1700-1769) trouxe ordens do governo português para inibir e eliminar a escravização dos índios, dando-se preferência à mão-de-obra africana. Não se pode dizer que houve uma substituição da escravidão indígena pela africana, pois as duas ocorreram ao mesmo tempo. O que se percebe é que na região guaporeana, ao contrário do Madeira e de outras áreas da Amazônia; a escravidão de negros tomou um vulto muito maior, fazendo com que os números de escravos indígenas fossem percentualmente mínimos. Dessa forma o governador da Capitania do Mato Grosso e Cuiabá, Capitão-General Caetano Pinto de Miranda Montenegro (1760-1827) Marquês de Vila Real de Praia Grande, assinalou que em 1800 existiam em Vila Bela e adjacências do Vale do Guaporé 131 índios e 5.163 negros.

A aliança e o apoio indígena eram indispensáveis para o êxito da política fronteiriça portuguesa no vale do Guaporé, uma vez que a constante ameaça castelhana se fazia sentir sobre a região. Os próprios castelhanos tentaram fundar missões religiosas para a catequese dos indígenas em terras portuguesas e, dessa forma, ampliar seus domínios territoriais sobre as lavras e faisqueiras dos sertões do extremo oeste. Essa política foi denunciada pelos índios Bororo que constataram a presença de padres espanhóis nas adjacências das cabeceiras do rio Cuiabá. Os portugueses imediatamente tomaram medidas armando os Bororo e ordenando a destruição de suas edificações.

Características das políticas governamentais referentes aos povos indígenas.

Durante a expansão colonial pelos vales do Guaporé e madeira, o estado português planejou uma política que tinha como objetivo o aproveitamento da mão-de-obra indígena, quer através da escravização realizada pelos sertanistas e bandeirantes, quer pela via da catequese, realizada pelos padres missionários. Ao perceber o riscos da aliança entre os indígenas do Guaporé e as forças da vizinha colônia espanhola, as autoridades portuguesas eliminaram a s práticas locais da escravidão indígena e tentaram atrair as populações residentes para sua esfera de influência, armando-as para lutar contra os inimigos castelhanos.

14705752_1393273964031091_3306393529694354675_nEntretanto, durante a exploração da borracha as forças do Estado Nacional do Brasil adotaram políticas de indiferença frente aos massacres étnicos promovidos pelos seringalistas, através dos assassinatos das populações indígenas residentes em áreas de exploração da borracha, que eram conhecidos como “limpezas”. A eliminação dos indígenas, considerados selvagens, hostis e perigosos foi considerada por grande parte da sociedade nacional como legitima e necessária ao sucesso dos empreendimentos extrativistas nas Amazônia.

Somente com o advento do século XX a situação começou a apresentar algumas transformações. Com a criação do SPI (Serviço de Proteção ao índio) em 1910, o Estado brasileiro começou, de forma muito tímida a desenvolver algumas políticas capazes de assegurar alguma proteção às populações nativas.

Por: Marco Antônio Domingues Teixeira

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